quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A casa de meus pais

Costumávamos meu irmão, meus primos e eu desvendar aquele mundo cheio de desafios, laranjeiras, coqueiros e muita terra, terra a perder de vista. Aquela época costumávamos ser felizes embaixo de dois jambeiros que hoje não existem mais, eram dois grandes jambeiros porta de entrada para a grande casa com dois alpendres que passaram a existir depois que meu pai pedreiro por essência decidiu dar vida a casa. Passei metade da infância e toda minha adolescência naquela casa, ela representa muito para mim, mas hoje não consigo pensar nela sem uma dose de remorso, não sei explicar mas voltar lá é um grande martírio, o estreito beco que dar acesso a ela já não é mais o mesmo, lembro que tinha um pequeno coqueiro próximo da chegada, onde hoje tem um poste de luz, embaixo ladrões destriparam uma ovelha em certa madrugada levaram a carne deixando o chão vermelho de sangue, nessa mesma estrada corri em tempos de inverno profundo com os pés na lama de uma terra morna de lembranças.

Todas às vezes que preciso voltar lá para ver meus pais sinto um grande remorso, não pelo os meus pais ainda sinto por eles a gratidão de está respirando, mas talvez pelas lembranças dos fracassos maiores, o passado me condena sempre, jamais tive uma relação pacifica com o passado, foi sempre uma relação de questionamentos e duras lembranças por isso, meus tormentos de ontem me fazem querer distância do passado, minha memória aprendeu com isso a esquecer facilmente o vivido em curto espaço de tempo. Essa memória para o esquecimento me faz esquecer até dos meus pais às vezes, me faz esquecer que um dia eu tive família, que um dia conversei com pessoas diferentes do meu próprio eu, que cultivei um amigo, almoçava na sua casa, ajudava nas suas tarefas diárias e sorriamos felizes sem ideia de que um dia seriamos desconhecidos, e que em um rápido encontro na feira livre da sua região pegaríamos na mão um do outro perguntaríamos como vai a vida, e mais nada cada um para o seu lado, cada um para suas vidas.

É duro dizer isso, mas retornar à casa de meus pais é uma árdua tarefa para minhas lembranças, tudo que não conquistei, ou que falhei em conquistar, ou o que imaginei além de mim e do tempo onipresente para o fracasso é pedra enorme para memória de um pobre diabo fadado ao silêncio. Só estou leve, livre, vivo, bem, quando estou só, por que esqueço o que me tormenta no passado, não tive um passado tão atribulado como se imagina minha mãe é uma pessoa descente, meu pai era alcoólatra mais abandonou o vício muito antes de gerar a mim e a meus irmãos, era fanático por religião, não conseguiu se segurar em nenhuma, e talvez isso tenha me afetado um pouco. Passei a maior parte da minha fase final da adolescência recluso, na solidão e não mais conseguir sair, às vezes me cobro por uma vida normal, mas não é algo que se escolhe, não é algo que se possa abandonar quando bem quiser, não é um perfil de facebook que se muda toda manhã ao acordar de acordo com o tipo de humor, é algo que se modela numa longa fase de reconhecimento interior na adolescência e segue com você para o resto da vida.

A casa de meus pais mudou ao longo dos anos acompanhei de certa forma uma parte dessa mudança, assim como o sitio por inteiro e toda a vizinhança e paisagem. O que eu não posso esquecer é das manhãs em que acordava cedo minha irmã e eu e íamos para escola a pé alimentando alguma coisa que ainda não sabíamos na época, não imaginava que passaria a meia vida inteira alimentando um vazio monstruoso dentro mim capaz de me blindar numa completa escuridão e fazer com que hoje encontre as pessoas de outrora amigos, famílias, conhecidos e mal os cumprimentem por medo da pergunta aterrorizante que possam fazer: “como vai a vida?"

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pensamento para o amanhã


haverá de chegar o dia em que sentarei sem pressa diante de um copo de cerveja e não lembrarei o ontem triste nem o amanhã enfadonho. Porque a cevada foi e continuará sendo o velho e aconchegante divã.

sábado, 30 de julho de 2016

Meu tempo é aqui e agora

O meu tempo é aqui e agora
o ontem segue esmaecendo e já há alguns passos de distância de um passado que me consumiu. Começo a renascer, começa em mim um processo de gênesis impulsiva, de uma transformação agora menos instável e complexa.

Ontem enquanto pegava fogo não sentia o tempo passar entorpecido por doses letais de solidão e desprazer de uma vida medíocre. Ainda volto lá na Velha estradinha de chão, o asfalto adiante, a igreja na beirada da pista dá início ao estreito corredor que leva direto para uma grande casa com dois enormes jambeiros apontados para o céu na entrada formando o grande portal de entrada até a residência. O cachorro deitado embaixo do banco, cabeça baixa sobre as patas, ares de tristeza e tédio o consumia, sento ao seu lado e passo as pernas por sobre seu pelo negro, é um belo cão, meio indiferente talvez por isso goste tanto de esta a seu lado.

O meu tempo é aqui e agora
estou a imaginar o momento em que não mais será, enquanto sobrevivo carrego o peso de tentar vencer a memória do ontem feito nódoa nos meus pensamentos, manchas que surgem e me trazem tristeza e pesar de um tempo que poderia ter sido e não foi.

O meu tempo é aqui e agora
e nesse tempo reconheço o momento conveniente para buscar e alcançar as glórias que abdiquei no passado em que decidi lutar para libertar primeiro minhas concepções de respirar a vida como pensada no alvorecer dos vinte anos.

"Seu tempo é agora" já me dissera um grande amigo e irmão. É, meu tempo é esse que se forma incerto como céu escuro as quatro da tarde anunciando dilúvio, esse é meu tempo onde a dúvida morre aos poucos e a certeza do ponto adiante se consagra, o corpo se prepara para a travessia perigosa de um novo olhar para mundo, para os seres humanos, para mim mesmo. O calabouço se abriu e o tempo aqui fora, aqui e agora é mais bonito do que imaginara.        

terça-feira, 15 de março de 2016

Ao inferno a catequese e os catequistas

 A catequese que se firmou nos anos de descobrimento e perdurou por muito tempo é sem dúvida um fator trágico para nossa civilização atual, a imposição de uma religião e de uma civilidade aos moldes estrangeiros foi e continua sendo uma afronta a cultura local e ao pensamento de diversidade, a catequese foi o fator preponderante para a guerra dos bárbaros, uma barbárie de extermínio e dominação esquecida pelos historiadores e tantos outros conflitos regionais. Onde ouve a catequese ouve a discórdia porque impor algo é sempre prejudicial ao pensamento livre, de um ser, de uma cultura, de uma sociedade, de uma nação. A catequese e os catequistas são o pedaço sujo da nossa história.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Inflando bobagens



Essa sociedade de loucos tecnológicos surge com novidades a todo instante, é um mundo de poucas grandes ideias e muitas bobagens. As pessoas estão sendo levadas, na verdade estão caminhando por conta própria "servidão voluntária" como bem diz o historiador Leandro karnal, estão tecendo sem parar bobagens uma atrás da outra e o curioso é a dimensão dessas bobagens no cotidiano. Um grande exemplo está na ideia de mudar os nomes das escolas, vira um debate acalorado entre aqueles que concordam com a mudança porque segundo declamam em alto e bom "não podemos reverenciar ditadores" como se isso importasse já que o ambiente escolar ainda é um ambiente de ditadura e prisão sufocante. E é exatamente nesse ponto onde quero tocar, pegar uma bobagem como a mudança de um nome de escola e transformar num grande debate e logo depois vir a mudança, enquanto existe uma educação deficitária em todos os sentidos e não existe se quer um debate quanto mais mudança, a ideia dessa sociedade atual é a de inflar bobagens enquanto as coisas importantes seguem seu fluxo sem resultados satisfatórios, esquecidos no canto da ignorância midiática e das irresponsabilidades dos seres pensantes representantes dos cidadãos e dos próprios cidadãos enquanto seres de diálogos. O processo de inflamar bobagens serve somente para fazer esquecer os reais problemas que merecem destaque, mas que são desinteressantes para a classe de burgueses fascistas do nosso país.

Sinceramente tenho nojo dessa sociedade que infla bobagens, precisamos evoluir como seres pensantes para fazer escolhas decentes, para sentar e discutir um problema entre tantos, mas não quando o assunto é saber se haverá festa ou não no carnaval as pessoas se mobilizam, se o idiota ou a idiota confinados devem ou não abandonar o programa as pessoas baixam o aplicativo e votam, sobre o kit gay, do ser ou não ser gay, hétero, bissexual, sobre biografia não autorizada, se meu time será campeão, se foi ou não falta em cima do beque, foda-se existem problemas mais importantes do que mudar um nome de escola,  questão como o novo remédio contra o câncer fosfoetanolamina que está amenizando as dores de muitos pacientes, mas por questão comerciárias a ANVISA proíbe a liberação, sabemos como a indústria farmacêutica trabalha em relação a esses assuntos que envolvem lucros absurdos. É esse tipo de problema que merece debate e solução rápida, ao em vez de ficarmos imersos em bolhas de bobagens vamos acordar para o tempo presente e lutar por coisas realmente importantes para o social, para o todo, para o país e deixemos de ser essa raça andante para abismos de suposições e bobagens midiáticas.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Filhinhos da mamãe


Assistindo a bela serie Band of Brothers de Steven Spielberg e Tom Hanks você se imagina um inútil nesse mundo trilhado e construido através de grandes guerras, de grandes batalhas, de grandes terremotos bélicos. Um bando de filhinhos da mamãe essa geração do século XXI, nunca se quer presenciou um grande reboliço, nunca se quer sentiu algo como o frio na espinha do não poder nem imaginar a volta para casa, o terror psicológico da carnificina, dos corpos ao chão perfurado por bala, estraçalhado, triturados pelas maquinas de guerras, se quer sentiu a dor de um companheiro de guerra sem as pernas jorrando em sangue ou simplesmente sem o psicológico preparado para ver o que a guerra escancara aos nossos olhos.

Durante todos os dez episódios a imagem que me marca é a de um soldado tirando o capacete da cabeça e deixando-o deslizar das mãos para o chão é a parte de apresentação inicial da serie, com uma música fantástica de Michael kamen. Até o sétimo episódio fiquei curioso para saber o que acontecera que fizera o soldado reagir daquela forma, só então no sétimo episódio na batalha de Bastogne uma das piores enfrentada pela companhia Isis, o soldado viu dois dos seus amigos serem atingindo por uma bomba que decepou as pernas de ambos, com a face assombrada ele retira o capacete e o deixa cair vagarosamente, a partir daquela cena o soldado desistira da guerra, não o corpo mais o psicológico havia se rendido. Essa é uma das cenas mais tocantes da serie, o conflito interior é constante sob as rajadas de balas e bombas. O homem é sem dúvida um ser histórico, imortal pelos seus feitos, irracional e humano ao mesmo tempo. Quando corpo e mente não se encontram inexiste possibilidade de unir caminho e equilíbrio, os passos não sustentam a barbárie.

Esse é um tempo que devemos nos questionar o que somos, porque somos e se ainda queremos ser.  Nesse início de século o que vejo é um bando de filhinhos da mamãe em guerras de torcidas organizadas, em  brigas de vizinhos condenados pela soberba um do outro, em conflitos conjugais, em briga de bar. O que vejo é somente frouxos tentando amenizar os feitos que nunca irão conseguir. Lutar e vencer em uma guerra é para poucos e só aqueles que viveram e sentiram na pele estarão na posição de dizer o que é difícil hoje em dia. Que tal pararmos com toda essa discussão de esquina e agirmos para tornar o mundo melhor e nos orgulharmos de alguma coisa que valha a pena no futuro.

O vinho

Curo minhas depressões com vinho. Sem dúvida que o vinho é o melhor amigo do homem ele é o cachorro engarrafado.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Winner x Loser

Na escola a criança é estimulada com a ideia perversa de engolir o seu vizinho para alimentar o seu ego induzido pela ideia americana de winner e loser. Elas crescem entram na universidade, pisoteando, deixando para trás alguns milhares de losers. Na universidade a normatização, na sociedade totalmente prontos a criarem mais losers. Toda essa ideia em torno do sucesso e fracasso é pura baboseira inventada por uma nação de consumistas vaidosos. Pra mim o único ser que pode ser rotulado de loser é aquele que acorda as oito da manhã e volta a dormir as onze.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma verdade

Quanto mais conheço as pessoas, mas gosto do meu cão.

                                                        Blaise Pascal

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Hermenêutica do outro



Enquanto eles gritam
rezam
choram
adormecem
imploram o perdão
comungam o erro, a traição
matam sem saber porque, se matam
enquanto eles traem seus próprios corações
enquanto procriam
mentem
sabotam
corrompem
distorcem o plano
meditam, consomem, somem
enquanto acreditam.
Eu calo!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

No entanto



Desviei um pouco meu caminhar, por terrenos com menos doer do pensar, menos desconfortos psicológicos melhor dizendo. Não me doe mais nada, com certeza é a capacidade de sentir que se afastou de mim, só sinto prazer no está só, no silêncio que por algum momento pensei em acorrentar fora de alcance da minha alma, na verdade são as velhas dores retornando, pensei está livre, mas a continuidade do eu vazio provou-me esta errado mais uma vez. E mais uma vez estou eu pensando em sumir de tudo e de todos, por uns dias, um mês, um ano para sempre. No entanto, existe uma faísca em qualquer lugar que vá a espera de um sopro que a faça virar chama e queimar até o fim. A faísca pode virar chama enquanto que o silêncio pode incendiar.