sábado, 19 de julho de 2014

Supra-essencial


O que mais procuro hoje é a fragilidade dos seres de pura essência, a simplicidade sem necessidade de recompensa, o zelo dos que amam. Só os canalhas dormem e fazem de travesseiro a insensatez do silenciar em tempos belicosos. A bandeira do não pensamento foi alçada e permanece a balouçar sob fortes ventos presunçosos que chegam de toda parte. Os que mais procuro não existem mais, a necessidade de algo supra-essencial é um grito sem ouvintes, é na verdade um grito na própria gritaria.

É somente na procura de algo supra-essencial que apagamos as nódoas do passado, dos nossos antepassados. O terreno não é mais o mesmo, fértil terreno em que os primeiros homens delimitaram seus lotes, que definiram suas leis supremas e imutáveis. O mesmo terreno é agora um deposito onde se guardam objetos imprestáveis, onde amontoam-se o desnecessário consolidado pelo poder. Este será o século dos sádicos e dos bárbaros trajados de terno e gravata.

O que mais procuro é o intocável. Nasce o sol todos os dias e seus raios desbotados revelam um mundo esgotado de suas naturais maravilhas. O que mais quero é ver a estrutura formal e complexa das flores desérticas, a sobrevivência dos seres iluminados, a desnecessidade do perigo nos pousos dos pássaros, o semblante sem sede de sangue, de guerra, sem sede de autoridade. O que mais quero está além do supra-essencial, uma simplicidade verdadeira clama pelo supra-essencial.                                                      

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