quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O que deveríamos?

Deveria ser extinto da natureza pensante a rançosa e obsessiva ideia de valia mercadológica, a ideia de produto, a ideia de favor pela recompensa. Deveríamos começar valorar mais a ideia de amor à vida pelo simples ato de ver o sol brilhar. O que não consigo entender de maneira alguma é que para um mundo totalmente tomado pela ideia judaico-cristã seja tão difícil amar o próximo, perdoar o próximo, ajudar o próximo. A humanidade segue com paixão, defende com paixão a cultura de um ser divino, mas não consegue ter paixão por si mesmo e pelo próximo. Isso não vale nada, absolutamente nada.

Não vejo mais que uma doença alastrando-se por entre as entranhas de uma sociedade educada na base da loucura divina. Não vejo mais que um povo idealizando toda uma vida, idealizando uma pós-vida, idealizando o próprio escorrer da vida nesse rio de contradição. Um rio que corre ao contrario e desemborca na linearidade do infinito indecifrável.  

Como uma ovelha que pasta em determinado lugar e dai a pouco esquece onde pastou e pasta novamente e esquece novamente. Seria menos doloroso se o ser humano não lembrasse do ontem, somos saudosistas ao extremos, sofremos com isso, minamos a tristeza pela perda. Com a perda nasce muitas vezes a solidão e a solidão leva-nos até o ontem. A raça humana é uma raça dramática, para tudo um drama diferente e infindável, a vida passa e o drama só aumenta carregamos a vida inteira o fado pesadíssimo da aceitação das coisas como são ou como foram moldando-se até aqui. A conformidade nunca foi um prato de sabor apreciável, as coisas quando tratadas com complacência tornam-se enfadonhas com toques de inutilidades.

Deveria sob o túmulo do primeiro santo, enterrar essa farsa de paixão monopolizada sustentada pelo escambo divino. Deveríamos esquecer a ideia do todo e começarmos a compreender as partes, todas as partes, o individualismo carrega o peso da tristeza muita vezes mastigadas. Deveríamos limpar o espírito todas as manhãs depois do ontem, uma terapia de risco, uma terapia a grosso modo necessária a muitos espíritos de porcos. Deveríamos trocar a decência pela indecência pelo vandalismo do que foi considerado decente até hoje. Deveríamos repetir diversas vezes outros gestos ao em vez de ajoelhar-se ou levantar as mãos para nada no céu, estender a mão para aquele que precisa independente de fatores econômicos, ajoelhar-se para plantar uma arvore preservando com mais responsabilidade aquilo que nos mantém vivo, respeitar para toda vida esse é o verdadeiro ensinamento.

Uma criança nasce e é levada a crer, outra criança nasce e também é levada a crer e assim várias outras crianças nascem e são levadas a crerem naquilo que a maioria creem. O verbo crer deveria ser substituído por dois outros verbos nessa corrente infinita: encontrar e praticar. Então uma criança nasce e é designada a encontrar o que ela acredita e ao encontrar ela passa a executar aquilo que acredita, ela passa a praticar tudo que colhe de sua infinita procura. Quem pratica o que desenhou para si bem ou mal segue o princípio do espírito inicial, do eu sou aquilo que me fiz desde o início. Essa é a ligação que deveríamos estabelecer entre todos e o mundo. Então eis mais um ensinamento: derivar tudo aquilo que encontro.

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