domingo, 23 de dezembro de 2012

A arte do não ser




 Dou as costas e vou embora, a dez metros olho para traz, aceno para alguém e falo alguma coisa do tipo: “às horas do século asfixiam”, o tempo é um velho companheiro e o horizonte me faz pegar a estrada. É essa a imagem que tem me acompanhado a alguns dias.

O pensamento que caminha em mim a procura de libertação percorre não só a existência frívola dos dias seguintes, mas os tormentos do ontem indigesto e os terremotos do aqui e agora. Existe queira ou não um mar aberto a tua espera. Para que o pensamento te leve até esse mar você precisa carregar a unicidade espiritual que os pássaros carregam. Você não é pássaro sabe disso, você não passa de sonhador, nada mais...


Nascer surte efeito não em longo prazo, mas diariamente, vinte quatro horas por dia, soluçando, bocejando, convulsionando o convencional. Ninguém é dono de ninguém, o tempo está presente e minha vida dissipa-se assustadoramente. É bem verdade que a vida se tornou ociosa. A um tédio muito grande por traz de sua construção e de sua passagem gradual em torno dos acontecimentos. A vida passada a limpo é uma verdadeira vergonha e viver se tornou impossível? Não. “Ainda é possível amar a vida só que a ama como se ama uma mulher a qual se desconfia”


A arte de ser escancarada em um quadro torto sem molduras na parede cinza da sala de estar, cujo, artista se julga a caráter de receber todas as honrarias que lhes são de direito. Mas esse artista é também um destruidor, pois ao mesmo tempo em que cria destrói o que era para não ser.

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