terça-feira, 3 de maio de 2011

1º de maio


Não quero vangloriar-me com o ato de caridade que pretendo descrever aqui. Quero apenas deixar clara a existência de humanismo ainda nessa sociedade injusta, inconsequente e desproporcional em se tratando de renda distribuída. Se eu não fosse ateu e possuísse a hipocrisia crônica da maioria dos seres de fé teria aumentado com certeza a minha carga de crença em um ser todo-poderoso. Eis o fato: hoje ao sair do trabalho resolvi voltar para casa a pé, gosto de andar a pé os pensamentos fluem melhor e com frequência e também odeio esperar ônibus não suporto a demora nem a lotação. Ao som de Engenheiros do Hawaii caminho vagarosamente é domingo e como todo domingo há poucas pessoas nas ruas, poucos carros passando, um silêncio indeterminado. De repente uma mulher me chama, uma senhora magra, com estatura mediana, face pálida, voz trêmula e expressão angustiante. “Moço, moço eu sei que o senhor é uma pessoa humilde, desculpe tomar seu tempo é que fui na padaria comprar pão mais o dinheiro não deu só tenho cinqüenta centavos o senhor poderia me ajudar” não demorei a responder claro! Claro vamos lá. “Eu moro logo ali sou catadora de latas. Juntei bastante hoje, vim da Paraíba”. A senhora veio sozinha? “Não tem meu filho e meus irmãos. Obrigado ta moço, obrigado ainda bem que o senhor apareceu já não sabia o que fazer eu vim da Paraíba, tenho AIDS é tenho AIDS, mas não pega ta, não posso mastigar quebrei o maxilar toque aqui, bem aqui”. Não consegui sentir nada, mas ela me ofereceu um pedaço de pão enrolado em um plástico que ela tentava mastigar e não conseguia.

Fomos até a padaria, pedir que escolhesse o pão ela escolheu pão doce, pegou leite, açúcar, fósforo, sabonete e uma broa de milho. Ela pulava meio que ansiosa para talvez matar a fome, a expressão dela era de fome. O fato é que ela já estava desiludida quanto ao fato de passar a manhã com fome e não esperava surgir do nada tal possibilidade e isso a fez parecer uma criança toda feliz quando ganha um doce. Já ajudei outras pessoas mais nunca vi diante dos meus olhos alguém com tamanha alegria porque iria ganhar um pão, porque iria tomar café da manhã, porque teria o estomago ressarcido por mais vinte e quatro horas.

Um religioso diria: foi Deus que te pôs na vida daquela infeliz. Se meu modo de pensar levasse em conta tal ilusão e rejeitasse a característica genética recebida pelos meus descendentes acreditaria com certeza em tais religiosos. Mais uma vez deixo bem claro que não quero vangloriar-me com tal ato de caridade. Quero apenas deixar escancarado que qualquer ser ganhando um, dois, três ou dez salários mínimos podem fazer de uma sociedade esquecida uma sociedade mais humana e coletiva.

A imagem dessa mulher não sairá jamais da minha cabeça. Ela me fez perceber o quanto vivo bem, mesmo com um salário mínimo. Muitos reivindicam isso e aquilo buscando sempre o lucro, buscando sempre a riqueza, o exagero. A questão não é ser rico, pois a maior riqueza é o que desabrocha dentro de cada um com tamanha intensidade e fúria para fazer sorrir o próximo. A questão é fazer sempre brotar dentro de ti o humanismo necessário para erguer uma sociedade menos decadente. Hoje, primeiro de maio e meu trabalho nunca foi tão leve e fácil. O trabalho de humanizar e tornar a sociedade menos egoísta. Como diria o Capitão Birobidjan*: “o que é meu é teu, o que é teu é meu”.

*Capitão Birobidjan personagem do livro O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ de Moacyr Scliar.

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