sábado, 8 de janeiro de 2011

Quando os homens choram


Consigo enxergar uma ponta da verdadeira dor no homem. Àquela que nasce do medo e também da covardia indecente. Quando eles põe as lágrimas para fora despejam junto uma certa vontade de piedade, mas a também aqueles que despejam líquidos inflamáveis por que passaram a habitar uma camada de lama e esses choram pela renovação, pela vida limpa, pela vontade de limpeza da alma e do corpo. O choro é a resposta explícita para os que têm asco da expressão piedosa do rosto, para os homens forte que sentem vergonha de molhar o rosto, para os pais machões que dizem para os seus filhos “só as mulheres choram” o choro bate na cara do homem forte e fraco. Não vou mentir que vejo no choro a fraqueza e causa danos a alma do homem robusto, mas não posso ter a audácia de dizer que não choro ou que nunca chorarei.

Imagine então assistir o choro de um carrasco. Eu nunca assistir mais posso afirmar que a profissão dele acaba no exato momento em que a primeira lagrima cai, a primeira lagrima é como o primeiro contato com a água fria quebra-se totalmente o vínculo com a parte quente em que se estava. As lagrimas caindo e lavando a alma do ser sujo é como a chuva torrencial nas ruas da cidade levando o lixo para o esgoto. Chorar pode representar falsidade no mais extremo processo de enganar seus telespectadores, chorar pode ser a dor de querer o impossível, de fingir ver e não ver, do ter e não ter, do está para lá da arrogância sentimental e do bom costume cerimonial da união dos seres, chorar pode vir a ser o medo que aperta os olhos na hora da morte, na contração ou rompimento dos músculos ou da carne. O homem chorando pode representar o novo em sua esfera de acontecimento acontecendo verdadeiramente ou o primeiro passo para uma violenta reviravolta e um desastroso caminhar para traz sempre repetindo a palavra “vingança” ou “a culpa é sua”.

Não consigo ver no homem é a inocência que só uma criança possui, mas quando ele chora não sei distinguir entre ele e uma criança, mesmo com toda falsidade exposta no rosto. Chorar para o ser humano significa arrependimento e quando se chega a isso forma-se outro ser, incapaz de enxergar a vida como ela realmente é, infelizmente ele perde a coragem e a vontade em troca da força e do arrependimento divino. Dessa forma para cair em uma armadilha não precisa dar mais que dois míseros passos. O choro do cansaço físico ou mental, da dor assolando o corpo físico ou sentimental, da vida que é de mais perversa para alguns infelizes, esse choro sim é aceito, mas o choro do arrependimento para mim é sinal de fraqueza, de incapacidade, de vontade de cair. O arrependimento muitas vezes é o alimento dos trocistas, dos canalhas e dos homens de batina.

Deve-se apenas chorar. Por que chorar faz bem para alma concreta e nunca fazer o que leve ao arrependimento, pois no arrependimento é onde está a lama da vergonha, da mentalidade duvidosa, do erro, da convulsão de piedade quixotesca. Chorar pelo motivo da dor ser demais para aguentar simplesmente, chorar por que o pensamento difícil de suportar vem à luz e deixa-o deprimido, chorar por que é preciso libertar do peito algumas dores descontroladas. Quando os homens choram vejo duas coisas: liberdade ou falsidade aliada a certo arrependimento sem justa causa.

Um comentário:

  1. Um dos temas que mais me fascinam é o das lágrimas. Eu penso em escrever a minha monografia sobre a história das lágrimas. Pois isso me permite passar pela história da filosofia, religião, guerra etc com mais intimidade.

    Foi bom ler o teu texto devido a trazer uma reflexão sobre as várias formas de chorar, passando pelo arrepedimento e por uma espécie de desabafo dos robustos.

    Em história das religiões, as lágrimas implicam em um dos assuntos mais requisitados, já que a religião é, em primeiro lugar, de uma dimensão afetiva.

    Hoje em dia, nós vemos um fenômeno "religioso" comprometido apenas com o êxtase espiritual, com a "alegria" de Deus. E é isso que tem mais atraído "fiés". No entanto, ao ver as formas antigas de religiosidade, percebe-se uma necessidade sincera que é a da experiência existencial, e sabe que esta é dolorosa na maior parte das vezes: não há experiência existencial sem angústia, arrependimento, tédio, lágrimas, em suma, sem sofrimento e vazio.

    Abraço sincero.

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